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domingo, 20 de abril de 2008

Nossa Bagdá
Arnaldo Antunes
Composição: Péricles Cavalcanti
Para os Novos Baianos

Todo dia na janela
Eu fico olhando para a nossa Bagdá
Recordando as muitas mil e uma noites
Que a gente passou lá
Bagdá,
à beira do Tigre
Bagdá,
a jóia do Eufrates,
Bagdá
Bagdá,
na Mesopotâmea
Bagdá,
babel Babilônia,
Bagdá
Quando na noite as sirenes
Começam a tocar
Antecipando as mil bombas
Que vão despencar
Eu me lembro
Dos ataques de outros tempos
Sobre a nossa Bagdá
Que porém não conseguiram destruí-la
Nem riscá-la do mapa
Bagdá,
dos jardins suspensos
Bagdá,
Simbad o marujo
Sherazade
Bagdá,
da lua crescente
Bagdá,
da água abundante,
Bagdá
Bagdá,
vizirs e califas
Bagdá,
quarenta ladrões,
e Ali Babá
Bagdá,
Harum al Rachid
Bagdá,
das mil livrarias,
Bagdá

LOS NINOTS DE BAGDAD *



¿Cómo te mirarían los niños de Bagdad una noche de sábado al volver a tu casay colgar tu móvil en el cargador?

Hay pozos de sangre ardiendo en sus pupilas…
¿Qué te dirían los niños de Bagdadal enchufar tu cepillo de dientes automático y descubrirte frente al espejo una nueva cana?

Huele el viento a tambores de orina,

tienen miedo las cunas,

las tumbas,

los colchones de esta ciudad…
¿Han visto la nieve alguna vez los ninots de Bagdad por la televisión?

¿Qué dirás a tus nietos de este aullido del siglo XXI,

de este banquete de la muerte,

cuando el sol de tu sombrero se quebrante,

y los oigas reír y gritar por el pasillo:

“Abuelo,

abuelo otra vez te has dejado en el vaso la dentadura ... Ja, ja, ja.”

¿Qué les dirás cuando no sueñe el móvil pues todos tus amigos se fueron al otro barrio?

¿Cómo explicarás esta chapuza de la humanidad?

¿Una batallita más?

¿Un pedo contenido?
¿Saben los niños de Bagdad,

-tú ya sí-que el mañana es un crimen,

una estéril salmodia del caos?
Nadie los indultó la noche de San José.

Ardieron como fallas, como antorchas humanas.

Ardían los posters de sus ídolos:

Figo, Ronaldo, Raúl, Roberto Carlos …

Ardían los collares, las palmeras y los trajes de novia de sus madres.
Mientras los perros aullaban a la galaxia cientos de pájaros,

aturdidos por la explosión,

llovían fulminados y yertos.

Y la pintura de los coches se levantaba y los dátiles eran lágrimas de ámbar.
* En un canal de televisión retransmitían las fallas en directo,

en los demás todos esperábamos con el corazón en un puño que aquella locura escrita y anunciada se frenase como Josué detuvo el sol ante los enemigos.


(Del libro El cielo de Bagdad (Diario y poemas del viaje a Iraq), Ángel Petisme. Editorial Xordica, 2004)
(... nunca me olvido de que ellos existen...) jessica.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

La noche del jabali

Apaga la radio, companera
Hay tantas cosas para conversar.
No preguntes cuantas veces por segundo,
Mueve las alas el colibri.
Pergunta por ejemplo:
¿que estamos haciendo por Haiti?
¿que donde queda, dices?
En un lugar cercado por la noche
En el inmenso cobalto del caribe
La noche en este caso
Es la miseria.
Es el hambre, es la palabra presa.
Es negar el camino a la inteligencia.
Es negar que el obrero es un poeta.
¿que cuantos habitantes tiene?
Los que le quedan
Despues de tanta masacre.
¿que si luchan, ademas de sobrevivir?
¿que si luchan?
Claro que si, pequeno amor, claro que si.
Los patriotas haitianos
Andan con luces y colores en las manos
Y andan floridos.
Como la tierra regada por llovisnas e por cantos.
Pero han luchados solos, companhera, solos.
Aunque andan florecidos
Como andan los hombres cuando andan luchando
Han luchado solos, companhera
Hasta que nuestra conciencia dispare
En la lucha por liberar Haiti
Hasta que el mundo se alce en una sola voz:
Luminosa, solidária.
E entre todos hagamos posible la mañana
Que acabe para siempre
Con la noche del jabali.
Ahora, pongamonos em marcha
Que la palabra sin los pasos
Es una palabra muerta.
Y el tiempo nos dice: a v a n z a!!
Constryamos entre todos la mañana
Que acabe para siempre
Con la noche del jabali,
Con la noche del jabali.
No permitamos que el future nos pregunte
¿que hacieron ustedes, por haiti?
Y respondamos bajando la cabeza:
Los hombres que cayeron
Son el numero exacto
De las veces que en un siglo
Mueve las alas el colibri.


Ali Primera - Cantor e compositor venezuelano.

O NOME POLÍTICO DO AMOR

Frei Betto


Por que o socialismo, em tese uma alternativa humanitária ao capitalismo, fracassou na Europa e na Ásia? O capitalismo teve a esperteza de, ao privatizar os bens materiais, socializar os bens simbólicos. De dentro do barraco de uma favela uma família miserável, desprovida de direitos básicos como alimentação, saúde e educação, pode sonhar com o universo onírico das telenovelas e ter fé de que, através da loteria, da sorte, da igreja que lhe promete prosperidade ou mesmo da contravenção, haverá de ter acesso aos bens supérfluos.

O socialismo cometeu o erro de, ao socializar os bens materiais, privatizar os simbólicos, e confundiu crítica construtiva com contra-revolução; cerceou a autonomia da sociedade civil ao atrelar ao partido os sindicatos e movimentos sociais; coibiu a criatividade artística com o realismo socialista; permitiu que a esfera de poder se transformasse numa casta de privilegiados distantes dos anseios populares; e cedeu ao paradoxo de conquistar grandes avanços na corrida espacial e não ser capaz de suprir devidamente o mercado varejista de gêneros de primeira necessidade.

Hoje, resta Cuba como exemplo de país socialista. Todos conhecemos os desafios que a Revolução enfrenta às vésperas de seu meio século de existência. Sabemos dos efeitos nefastos do bloqueio imposto pelo governo dos EUA e de como a queda do Muro de Berlim deteriorou a economia da Ilha.

Apesar de todas as dificuldades, nesses 49 anos a Revolução logrou assegurar a 11,2 milhões de habitantes os três direitos básicos: alimentação, saúde e educação. Elevou a auto-estima da cidadania cubana, que tão bem se expressa em suas vitórias nos campos da arte e do esporte, bem como na solidariedade internacional, através de milhares de profissionais cubanos das áreas da saúde e da educação presentes em mais de uma centena de países do mundo, em geral em regiões inóspitas marcadas pela pobreza e a miséria.

O socialismo cubano não tem o direito de fracassar! Se acontecer, não será apenas Cuba que, como símbolo, desaparecerá do mapa, como ocorreu à União Soviética. Será a confirmação da funesta previsão de Fukuyama, de que “a história acabou”; a esperança – uma virtude teologal para nós, cristãos – findou; a utopia morreu; e o capitalismo venceu, venceu para uns poucos – 20% da população mundial que usufrui de seus avanços – sobre uma montanha de cadáveres e vítimas.

Nós, amigos da Revolução cubana, não esperamos de Cuba grandes avanços tecnológicos e científicos, serviços turísticos de primeira linha, medalhas de ouro em disputas desportivas. Esperamos mais do que isso: a ação solidária de que falava Martí; a felicidade de um povo construída em base a valores éticos e espirituais; o princípio evangélico da partilha dos bens; a criação do homem e da mulher novos, como sonhava o Che, centrados na posse, não dos bens finitos, e sim dos bens infinitos, como generosidade, desapego, companheirismo, capacidade de fazer coincidir a felicidade pessoal com os sucessos comunitários.

Em resumo, almejamos que, em Cuba, o socialismo seja sempre sinônimo de amor, que significa entrega, compromisso, confiança, altruísmo, dedicação, fidelidade, alegria, felicidade. Pois o nome político do amor não é outro senão socialismo.

Frei Betto é escritor, autor de “A mosca azul – reflexões sobre o poder” (Rocco), entre outros livros.

segunda-feira, 7 de abril de 2008


Eduardo Galeano: Uma mentira


Por Eduardo Galeano [Segunda-Feira, 7 de Abril de 2008 às 14:52hs]


Até há pouco, as grandes mídias brindavam-nos, a cada dia, com números alegres acerca da luta internacional contra a pobreza. A pobreza estava a bater em retirada, ainda que os pobres, mal informados, não soubessem da boa notícia. Os burocratas mais bem pagos do planeta confessam agora que os mal informados eram eles. O Banco Mundial divulgou a atualização do seu International Comparison Program . Neste trabalho, participaram, juntamente com o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Nações Unidas, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e outras instituições filantrópicas. Ali os peritos corrigem alguns errozinhos dos relatórios anteriores. Entre outras coisas, ficamos sabendo agora que os pobres mais pobres do mundo, os chamados "indigentes", somam 500 milhões mais do que os que apareciam nas estatísticas. Além disso, a nova informação afirma que os países pobres são mais pobres do que aquilo que diziam os números e que a sua desgraça piorou enquanto o Banco Mundial lhes vendia a pílula da felicidade do mercado livre. E como se isso fosse pouco, verifica-se que a desigualdade universal entre pobres e ricos havia sido mal medida e à escala planetária o abismo é ainda mais fundo que o do Brasil.
Outra mentira Ao mesmo tempo, um ex-vice-presidente do Banco Mundial, Joseph Stiglitz, em trabalho conjunto com Linda Bilmes, investigou os custos da guerra do Iraque. O presidente George W. Bush havia anunciado que a guerra poderia custar, quando muito, 50 mil milhões de dólares, o que a primeira vista não parecia demasiado caro tratando-se da conquista de um país tão rico em petróleo. Eram números redondos, ou melhor, quadrados. A carnificina do Iraque dura há mais de cinco anos e, neste período, os Estados Unidos gastaram um bilhão de dólares matando civis inocentes. A partir das nuvens, as bombas matam sem saber quem. Sob a mortalha de fumaça, os mortos morrem sem saber por que. Aquele número de Bush chega para financiar apenas um trimestre de crimes e discursos. O número mentia, ao serviço desta guerra, nascida de uma mentira, que continua a mentir.
E mais outra mentira Quando todo o mundo já sabia que no Iraque não havia mais armas de destruição em massa do que as que utilizavam os seus invasores, a guerra continuou, ainda que houvessem esquecido os seus pretextos. Então, a 14 de dezembro de 2005, os jornalistas perguntar quantos iraquianos haviam morrido nos dois primeiros anos de guerra. E o presidente Bush falou do assunto pela primeira vez. Respondeu: “Uns 30 mil, mais ou menos”. E a seguir fez uma piada, confirmando o seu sempre oportuno humor. No ano seguinte, reiterou o número. Não esclareceu que os 30 mil referiam-se aos civis iraquianos cuja morte havia aparecido nos diários. O número real era muito maior, como ele bem sabia, porque a maioria das mortes não se publica, e bem sabia também que entre as vítimas havia muitos velhos e crianças. Essa foi a única informação proporcionada pelo governo dos Estados Unidos sobre a prática do tiro ao alvo contra os civis iraquianos. O país invasor só faz contas, detalhadas, dos seus soldados caídos. Os demais são inimigos, ou danos colaterais que não merecem ser contados. E, em todo caso, contá-los poderia ser perigoso: essa montanha de cadáveres poderia causar má impressão.
E uma verdade... Bush vivia seus primeiros tempos na presidência quando, a 27 de Julho de 2001, perguntou aos seus compatriotas: “Podem vocês imaginar um país que não fosse capaz de cultivar alimentos suficientes para alimentar a sua população? Seria uma nação exposta a pressões internacionais. Seria uma nação vulnerável. E por isso, quando falamos da agricultura americana, na realidade falamos de uma questão de segurança nacional”. Essa vez, o presidente não mentiu. Ele estava a defender os fabulosos subsídios que protegem o campo do seu país. "Agricultura americana" significava e significa "Agricultura dos Estados Unidos". Contudo, é o México, outro país americano, o que melhor ilustra os seus acertados conceitos. Desde que firmou o tratado de livre comércio com os Estados Unidos, o México já não cultiva alimentos suficientes para as necessidades da sua população, é uma nação exposta a pressões internacionais e é uma nação vulnerável, cuja segurança nacional corre grave perigo: - atualmente o México compra aos Estados Unidos 10 mil milhões de dólares de alimentos que poderia produzir; - os subsídios protecionista tornam impossível a competição; - por esse andar, daqui a pouco a tortillas mexicanas continuarão a ser mexicanas pelas bocas que as comem, mas não pelo milho que as faz, importado, subsidiado e transgênico; - o tratado havia prometido prosperidade comercial, mas a carne humana, camponeses arruinados que emigram, é o principal produto mexicano de exportação. Há países que sabem defender-se. São poucos. Por isso são ricos. Há outros países treinados para trabalhar para a sua própria perdição. São quase todos os demais.


________________________ Eduardo Galeano é jornalista e escritor uruguaio. O artigo foi originalmente publicado no jornal Pagina12 Tradução: Brunna Rosa

Eduardo Galeano